domingo, 18 de março de 2012

O Castelo


 
Nestor chegou zangado. As coisas no seu trabalho não tinham sido satisfatórias e ele recebeu uma carta de sua mãe pedindo para ele ir vê-la. Ele ama muito sua velha mãe, mas não gostava da vida na sua cidade natal. Colonizada por russos católicos a cidade refletia nitidamente os velhos hábitos comunitários e sua intransigência em relação às coisas espíritas. Ele tinha sido educado no seminário local e, para os olhos de certas pessoas era um herege. Também nesse dia ele chegou mais cedo que de costume e Neiva foi logo perguntando o que acontecera. “Não é por nada, Tia. Eu gosto do meu pessoal e até admiro a capacidade deles de viver. Eu tenho um velho avô que com quase noventa anos ainda levanta às quatro da manhã e vai ordenhar as vacas. O velho é um barato, mas quando se trata de religião é completamente fechado e duro. Quando vou para lá eu fico feito um peixe fora d’água”. É disse Neiva, eu conheci isso de perto. Não tanto pela religião em si, mas pela intransigência com os meus fenômenos, minha vida missionária e minha conduta. Mas a própria adversidade que me deparava me dava as lições que eu ia aprendendo. E cada dia eu ia me convencendo mais de que a fé é algo transcendental, é amor e é ternura. E eu tinha que cortejar e aprender esses valores com aqueles nos quais havia sido criada e educada. Valores da soberbia e da força dos velhos coronéis dos sertões nordestinos. Se dissesse a menor mentira ou mostrasse medo de dormir sozinha num quarto escuro era severamente castigada. Nesse meio havia pouco espaço para a imaginação e a gente era instada a só acreditar nas coisas que via ou palpava. E isso foi motivo de muitos conflitos. É meu caro Nestor Sabatovics, a missão caminha junto com o missionário.
Veja filho, depois dessa aonde eu fui parar. Meu mundo, o mundo meu e de meus filhos começou em 1950 quando eu era uma viúva recente e com apenas 29 anos de idade. Raul, meu marido, havia falecido em 1949 me deixando com quatro filhos: Gilberto com cinco anos, Carmem Lúcia quatro, Raul com dois e Vera Lúcia com apenas onze meses, além de Gertrudes com doze anos. Gertrudes era minha afilhada, mas tão apegada a mim que aproveitou uma confusão com sua certidão de nascimento e fez outra com meu sobrenome. A partir daí nos organizamos como perfeita célula familiar, pois sempre houve muito amor entre nós, muito carinho. A única dificuldade foi a de conciliar a independência que já sentia dentro de mim com a rígida determinação de meus pais, principalmente do velho Chaves meu pai. Procurando a liberdade econômica como base para uma independência mais ampla, minha primeira experiência foi montar um “Studio” fotográfico, mesmo a contragosto de meu pai. “E como foi sua carreira de fotógrafa?” Interrompeu Nestor. Foi breve. A vida confinada a um cômodo de 3x3 não estava sendo muito do meu agrado. Naquele tempo eu já começava a sentir ânsias de correr mundos, saber o que havia através daquelas montanhas. E foi assim que resolvi ser motorista profissional. Aproveitei de algumas poucas facilidades locais, juntei tudo que tinha, tirei carteira e comprei meu primeiro caminhão. “E como era esse carro?”, perguntou de novo Nestor. Era um Ford de cinco toneladas, 1946. “Ah! , já sei, era um Cara de Sapo tipo queixo duro”. Não Nestor meu caminhão não era “queixo duro” ele apenas não era sincronizado! Reagiu Neiva com um muxoxo. Daí, da Colônia Agrícola de Ceres, parti para o Brasil afora. “E seus filhos, a senhora os deixou em Ceres?” Coisa nenhuma! Ficamos todos juntos, ora na cabine do Ford ora nalguma pensão de currutela, nossa vida era na estrada. Quando eu tinha alguma viagem mais longa eu alugava uma casa e Gertrudes cuidava de tudo até a minha volta. Minhas voltas eram sempre uma alegria renovada. Eu sempre trazia presentes, novidades e fazia umas comidinhas gostosas, pois era orgulhosa da minha capacidade culinária. E assim essa vida durou uns cinco ou seis anos. Conheci uma boa parte do Brasil de norte a sul e fiz muitos amigos, principalmente entre os caminhoneiros.

“E os amores?” Perguntou Nestor com ar complacente. Nestor, por incrível que possa parecer, eu, apesar de ser viúva e bonita eu era respeitada e acatada mais pela minha capacidade profissional e camaradagem de colega do que como mulher. Realmente, Nestor, desde aquele tempo, o Pai já cuidava de mim e eu sentia intuitivamente o meu destino de missionária. Meus amores eram meus filhos e minha vida o lar mais ou menos móvel que mantínhamos. Assim, eu morei em Anápolis, São Paulo, Londrina e alguns outros lugares. Meu último pouso antes da Cidade Livre e da abertura da minha clarividência foi Goiânia. Gilberto já estava com onze anos e Carmem Lúcia com dez e eu tinha que pensar na escola deles. Aluguei uma casa nessa cidade onde eu tinha amigos, desde o tempo em que meu pai trabalhou na construção do Palácio das Esmeraldas, e eu sempre gostei de Goiânia. O jeito foi trabalhar na única empresa de ônibus que havia. Ela fazia uma linha de micro-ônibus entre Goiânia e Campinas e eu trabalhava um bocado. O sistema envolvia salário e comissão e tudo dependia do motorista em parar e ter paciência com os passageiros. Gilberto apesar dos onze anos já me ajudava como cobrador. Saíamos de nossa casa de madrugada, os dois numa bicicleta, e íamos apanhar o carro na garagem. À noite repetíamos o percurso. Quando as aulas começavam eu fazia o trabalho sozinha. “E nesse tempo a senhora tinha vida religiosa?” Não Nestor, mas já começavam a acontecer coisas estranhas, diferentes. Um dia, em 1958 cheguei do trabalho muito cansada. Deitei um pouco com a intenção de tomar um banho em seguida e fiquei olhando para o teto pensando na minha vida, nas coisas que tinha de fazer, quando comecei a ver no teto uma campina verde e um castelo, nas imediações do qual pessoas caminhavam e riam. Vi então mil coisas diferentes acontecendo e exclamei, meu Deus! Essa visão me preocupou muito e eu trabalhava pensando em voltar para casa, me deitar no mesmo lugar e ver o meu lindo castelo com as pessoas passeando e rindo. Até que um dia eu soube que aquele castelo existia numa das sete dimensões que antecedem o Canal Vermelho. Como conseqüência eu teria uma grande caminhada cármica para chegar até lá e me inteirar das coisas com segurança. Mas a vida não parava para mim, sempre com alguma novidade, alguma doutrina.
A partir de então comecei a analisar o desenrolar da vida dos homens, partindo de nova compreensão. A partir dessa observação tudo mudou em minha conduta natural. Continuava a ver castelo e as coisas que ali aconteciam me enchiam de cuidados. Minha vontade era de penetrar nele e na sua intimidade. Porém eu tinha a impressão que com isso estaria penetrando na vida de meus filhos, o que sentia ser um desrespeito e não entendia bem o meu procedimento. Noutra ocasião eu fui contratada para uma viagem grande que me daria ganhos para atender algumas necessidades prementes, pois eu já estava tendo dificuldades financeiras. A viagem era para as imediações de Luziânia em Goiás. Fui buscar a carga e, enquanto os ajudantes carregavam o caminhão eu fiquei sentada na calçada, entretida com as pessoas que sempre me olhavam com certa curiosidade e sempre queriam me conhecer. Eu já estava acostumada com isso, sempre queriam conhecer a motorista profissional. De repente eu vi um jovem que entrou como que se disfarçando no meio das pessoas que me rodeavam. Notei que eu já o tinha visto no castelo e senti o coração bater com força! No mesmo instante, porém vi que um soldado da polícia iria prendê-lo. Rápido, sem pensar, procurei atrair a atenção do soldado e fazia sinais para o rapazinho que fugisse ele me entendeu. O soldado ficou perto de mim fazendo mil e uma perguntas, que eu respondia com muito cuidado. “Neiva, viva a sua vida interior com mais intensidade, Deus está sempre dentro de você. Comece a trabalhar com amor em benefício dos outros”. Era Mãe Yara, a Senhora do Espaço e eu lhe disse: tenho medo do soldado, do que ele deve ter pensado quando eu chamei sua atenção no meio de tantas pessoas. “Filha, disse ela, não tenha prevenções contra os seus semelhantes, desperte para a vida, medite sobre as suas responsabilidades perante a humanidade e perante Deus. De você, vão depender muitas criaturas que servem na família, no trabalho e na sociedade. A ação do tempo é infalível e ele nos guia suavemente pelo caminho certo, aliviando as nossas dores, assim como a brisa leve abranda o calor do verão. Cada pessoa emite a sua própria vibração. O que se pede, sobre tudo, filha, é o esforço mental de compreender”.
Quando comecei a ver no teto uma campina verde e um castelo, nas imediações do qual pessoas caminhavam e riam.
Meu Deus! Eu já começava a chegar, a entender. Pensei, porque não perguntei a Mãe Yara sobre o castelo? Mesmo assim a resposta veio. “Filha, o missionário tem uma criação especial e a sua aura dá uma condição especial de vida à sua família. Na verdade são tribos, e de época em época descem para a terra, espíritos como você, que estão a caminho de Deus. São tribos que já fizeram muito aqui, isto é, tribos que passaram, construíram e deixaram muitas invenções, mas que não souberam amar”. Como? Perguntei se são tribos que já morreram. “As forças são recebidas por meio do cérebro e fazem as impressões na mente por ondas de pensamento, ondas essas que podem ser medidas e gravadas como as ondas do som. E é a capacidade de emitir as ondas mentais aos planos superiores que nos dá o poder de fazer as coisas que parecem milagres. Existem aqueles que não compreendem as forças do poder superior. Mas não dê ouvidos às intrigas e às calúnias; só as árvores que dão bons frutos é que são apedrejadas por aqueles que não alcançam esses frutos. A árvore que não dá frutos, ninguém se importa com ela”. E, sorrindo, se foi. Eu quis ficar frustrada, mas pensei: Meus filhos estão comigo e eu sempre os protegi e continuarei a protegê-los. Sempre foi assim e não serei eu quem vai mudar o curso das coisas. Sim, Nestor, os conflitos aumentavam e eu me debatia só, muito só. Às vezes eu procurava algum espírita, mas, invariavelmente ele me citava algum exemplo como se Alan Kardec fosse vivo e segurasse toda a evolução do mundo dos espíritos. Os contatos foram rareando e eles acabaram por se desligar de mim. Somente Chico Xavier, de longe, me dava crédito. Eu me sentia uma pobre louca, solitária e insegura nos meus pensamentos; o pior era que eu dava explicações, esclarecendo as coisas que via. Deus aceitara o juramento dos meus olhos, quando os entreguei a Jesus. Sim, meu filho, isso tudo se passou em 1958 e as coisas lembradas me trouxeram até aqui. “Seja verdadeira em tudo, dizia Mãe Yara, deixe que a doutrina em sua ação infalível nos guie suavemente no caminho certo, aliviando as nossas dores. Filha, Deus se manifesta ao homem através do próprio homem e vive a sua figura simples e hieroglífica, sim, filha, essas são palavras dos antigos”. As palavras de Mãe Yara ficaram gravadas na minha cabeça, mas longe do meu coração. 
Certa ocasião cheguei em casa mais ou menos a meia noite e estava com muita fome. Peguei uma panelinha para esquentar um ovo e, meio desajeitada, queimei um dedo; cai no meu baixo padrão e, meu Deus! Mãe Yara estava perto e ouviu. “filha, disse ela, que vergonha! Pensar que esperamos que você seja uma líder espiritual. Vim para fazer uma prece contigo. O seu Manuel das Emas, o seu amigo, vai morrer. Na sua próxima viagem mande o Delei com a turma”. Não lembro se comi o ovo, lembro apenas que estava insegura. Perguntei ao Getúlio sobre o que ele sabia a respeito do seu Manuel e ele, ao par da minha situação disse que eu tivesse cuidado e me acalmasse, pois existiam espíritos zombeteiros e poderia ser alguma interferência. Senti-me inquieta e, pior, eu sabia que não era verdade aquilo que ele havia dito. E continuei pensando naquelas ofensas; e se ela não voltasse mais? Na hora do almoço o Delei pediu a chave do caminhão e foi fazer o serviço para me descansar. Eu esqueci completamente do aviso de Mãe Yara. Mais tarde eu soube que o seu Manuel caíra morto. Pensei: quem sabe se eu estivesse rezado com a Senhora do Espaço, como ela quisera na noite anterior, eu tivesse ajudado o seu Manuel? Tudo passou. Oito dias depois, vi a noite, com os meus olhos abertos, o seu Manuel das Emas, de pé em uma estrada luminosa e amarela, com seu chapéu de palha e com a mesma roupinha que ele sempre usava. Ele deu a entender que continuava a ser meu amigo e sorria, como se me dissesse:” estou feliz”. Sim Nestor, assim fui tendo visões.

4 comentários:

È sempre bom ler principalmente sobre Tia Neiva que sei pouco. obrigada.

Salve Deus fui muito apedrejada no meu templo e sempre que eu me revoltava e tinha vontade de abandonar tudo vinha esta frase na minha mente... (Mas não dê ouvidos às intrigas e às calúnias; só as árvores que dão bons frutos é que são apedrejadas por aqueles que não alcançam esses frutos. A árvore que não dá frutos, ninguém se importa com ela”.)... agora estou imensamente feliz tenho um ano de doutrina e hoje é a primeira vez que leio esta frase. Estou feliz por saber que algum mentor de luz falava comigo nas minhas horas de abandono e tristeza me mostrando o caminho e me dando forças para seguir em frente. Salve Deus como eu amo toda a espiritualidade. Salve Deus. Ninfa Lua Tagana.

salve Deus meu amado irmão, e lindo o trabalho que estás a fazer Deus o abençoe cada dia mais
esse é o meu blog
http://wwwjuntoemisturadoblogsportcom.blogspot.com.br/

A cada momento em que estou fazendo parte da doutrina estou melhorando mais e mais, como estou feliz e hoje sei que tenho uma grande missão neste plano.
Salve Deus.

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