terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Vó do Bordado

No coração de algumas pessoas, mesmo com o encerramento das atividades do orfanato, a missão com as crianças de Tia Neiva nunca deixou de existir.

Uma destas pessoas chamávamos, carinhosamente, de “Vó do Bordado”. Vó Maria José, uma escritora e professora paulista, que vivia em Brasília há muito tempo e eternamente grata a Tia Neiva e ao Vale do Amanhecer.

Mesmo depois do fechamento do Orfanato, quando se aproximava o Natal, ela aparecia com uma lista enorme de todos que haviam passado pelo orfanato (crianças, funcionários, colaboradores) para ser conferida por Tia Lúcia (Carmem Lúcia, Filha de Tia Neiva e lª Muruaicy):

- Não Zezé (Tia Lúcia a chamava assim), esse aqui já não aparece há mais de 5 anos...

- Mas e se ele aparece de repente? – Retrucava a Vó do Bordado.

- Aí damos um daqueles presentes extras que sempre sobram!

- Não! Aí não vai ser o presente dele! Ele vai achar que foi esquecido! – Assim ela fazia “um bico” e terminava a conversa.

A Vó do Bordado não admitia que ninguém pudesse esquecido.

- Meu filho quem é esse Sexta-feira e esse outro Quinta-feira? Ah! Vó, são uns meninos novos, irmãos, que um chegou na quinta e outro na sexta-feira passada, como eles quase ainda não falam eu coloquei na lista os apelidos que os outros colocaram.

- Meu Deus Rodrigo! Eles têm que dizer o nome! Chame eles agora!

Lá ia eu atrás dos moleques... Quando a vó falou com eles descobriu que o nome deles era tão complicado como o do Tomate e do Gaguinho.

- Melhor deixar Quinta e Sexta mesmo... Nunca vou decorar! – Só assim ela se conformava.

Os presentes tinham cada um uma etiqueta com o nome e apelido. Para que soubessem que havia sido escolhido individualmente. Todos ganhavam uma roupa e um presente personalizado.

A Vó do Bordado fazia tudo pessoalmente. Escolhia os presentes, as roupas, os pacotes... Todas as roupas vinham sempre com uma bolsinha ou sacola própria. Os papéis de embrulho eram sempre diferentes. Nada de coisa comprada no atacado e presente igual para todos! Ela passava UM ANO preparando tudo. Quando terminava a festa de Natal ela já começava a querer atualizar a lista e ver quem não tinha recebido e quem ia se encarregar de entregar o presente ao desaparecido!

As “crianças” iam crescendo... Depois do Orfanato fechado, não deveriam aumentar a quantidade de presentes, pois não teriam crianças novas. Ah, mas que dúvida... Ela começou a listar o nome dos filhos dos que haviam passado pelo orfanato e preparar presentes para ele também!

Assim como uma boa comida NUNCA faltou no orfanato, sempre se multiplicando, inexplicavelmente os presentes da Vó do Bordado também não paravam de multiplicarem-se! Sempre aumentavam mais e mais. Ficávamos loucos procurando as pessoas que ela insistia em manter na lista: “Vai que ele aparece?” Nas vésperas da festa de entrega, que se tornou a grande confraternização dos Filhos e Filhas Adotivas, saíamos como loucos pelas ruas e vielas do Vale e do “Pacheco” com a Saruana do Coronel, em busca dos desaparecidos.

- “Meu filho você lembrou-se de fulano?”

- Xi... Não tava na lista! Esqueci!!!

- Carmem Lúcia faz uma etiqueta para o presente do fulano enquanto o Rodrigo vai ver se o encontra!

Isso acontecia quando já existiam mais de 200 pessoas no portão da casa de Tia Lúcia e já não sabíamos como íamos acomodar a todos!!!

Uma loucura que sempre trazia a vibração que mantinha viva a memória do LAR que um dia tivemos.

No dia da festa, sim a entrega de presentes era uma verdadeira festa! Com um bom lanche para todos, discurso e principalmente o PAI NOSSO DAS CRIANÇAS que nunca esquecíamos.

Minhas filhas ganharam presentes e aprenderam a chamar a Vó do Bordado de avó também. Lembro em especial de uma vez minha filha mais velha com os olhinhos brilhando esperando o presente que vinha das mãos do Papai Noel, fantasia que eu vestia e que por vezes “cozinhava” em meio às almofadas para crescer a barriga. Para muitos o presente da Vó do Bordado era o único do Natal!

Hoje não sei onde anda a Vó do Bordado. Se ainda está viva ou se já celebra a chegada para o Natal, junto daqueles que um dia passaram pelo Orfanato, lá no céu. Mas sei que aqui ela jamais será esquecida! Procurei muito na internet alguma referencia com seu nome verdadeiro, que nunca esqueci, estranhamente nada existe registrado no Google, nem mesmo os livros que ela publicou. Pensando nisso reflito até se era possível existir realmente alguém assim... De sentimentos tão simples, tão puros. Tão comprometida e com tanto amor. Um amor como o de Tia Neiva... um amor de avó que é duas vezes mãe... Um amor como o da Vó do Bordado.

Em tantos anos de doutrina confesso que nunca falei com a Vózinha do Espaço, a Vovó Marilú, nunca dava certo! Mas convivi muito com a Vó do Bordado... creio sinceramente que era a mesma coisa!

Mestre Casagrande

Filho Adotivo de Koatay 108

Postado Originalmente no site www.valedoamenhecer.net.br  

Obs.: Consegui posteriormente a imagem da capa de um livro publicado por ela. Também soube que ela está bem e continua realizando seu abençoado trabalho.

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